terça-feira, 20 de julho de 2010

HOMOSSEXUALIDADE DENTRO DE CASA: MEU FILHO NÃO!

Amor incondicional, carinho, respeito, confiança e orgulho são características intrínsecas aos pais, que veem nos filhos a continuação de sua linhagem e a concretização de seus próprios desejos, ou seja, um espelho de si mesmos. Na maioria das vezes, essa projeção não é concretizada, resultando em uma enorme decepção para ambas as partes: os pais por não terem o filho que gostariam de ter e os filhos por se sentirem como algo que não deu certo. Um desses momentos de decepção dos pais quanto a um filho ou filha, é quando um destes se assume homossexual; momento em que as características inatas aos pais perdem espaço para a frustração, a raiva e a culpa.
Não obstante a todos os avanços sociais no que se refere ao tema diversidade sexual, como o aparecimento de homossexuais em telenovelas, filmes e séries televisivas, ou mesmo a quebra do tabu existente acerca da homossexualidade, quando o assunto entra nos lares é visto sob outra perspectiva – predominando o preconceito enraizado na sociedade. Ao se depararem com a homossexualidade dentro de casa, os pais reagem de forma agressiva, negando aceitar que a projeção feita para seus filhos tenha sido desprezada e muitos, acreditando que o filho esteja com problemas psicológicos, procuram ajuda profissional. É importante ressaltar que a ação de procurar psicólogos para curar “traços” de homossexualidade é equivocada, visto que a Organização Mundial de Saúde (OMS) não a considera uma doença desde 1985 e, portanto, não é passível de tratamento médico.
Na adolescência se concentram os maiores conflitos de identidade e se passa a ter maior convicção do que se deseja afetiva e sexualmente, por isso, é nessa fase que, frequentemente, os homossexuais assumem sua orientação sexual. Entretanto, sem o apoio dos pais, que se culpam pela situação ou acreditam partir de uma opção sexual, a tendência é que esses adolescentes se afastem da família para viver sua identidade sexual. Assim como os filhos, os pais também começam a vivenciar e sofrer diante da percepção do filho(a) homossexual, muitas vezes preferindo negar a realidade. Nesse sentido, esses filhos não encontram em casa o amor incondicional que deveriam encontrar por parte dos pais, transformando-se assim em adultos tristes, depressivos e conflituosos.
Logo após à revelação de que um de seus filhos era gay, a filósofa e professora da USP, Universidade de São Paulo, Edith Modesto criou uma ONG para ajudar os pais a lidar com esta situação, a GPH, Grupo de Pais de Homossexuais. Segundo assevera Edith Modesto, existem hoje dois motivos de vergonha na ótica desses pais: ter um filho gay ou filha lésbica e a de radicalizar a situação, expulsando o filho de casa ou agredindo-o moral e fisicamente, haja vista o avanço da sociedade quanto ao assunto. Dessa maneira, ainda conforme Edith, os pais ficam entre uma coisa e outra: mantêm o filho em casa, mas não aceitam a homossexualidade dele. Existe nesse ponto um paradoxo: em nome do que os outros vão pensar, os pais, ao mesmo tempo, não aceitam a homossexualidade dos filhos, porém, não os expulsam de casa. Sendo assim, fica evidente que o mais importante, vivemos em uma sociedade pluralista, onde o convívio social passa pelo respeito às diferenças de cada ser humano. Ao se considerar esse pressuposto, é possível inferir que o respeito deve surgir, em primeiro lugar, dentro de casa, porque o caráter de todos nós é moldado por nossas relações cotidianas com aqueles que nos deram a vida: nossos pais. O respeito fora de casa virá apenas quando todos se conscientizarem de que a homossexualidade é uma condição humana tão natural quanto a heterossexualidade, não sendo uma perversão, opção ou escolha individual, afinal, quem escolheria ser homossexual em uma sociedade homofóbica e cheio de estigmas como esta que vivemos? Certamente, ninguém.
Texto Erneilton de Lacerda
Graduando do curso de Jornalismo da Faculdade São Francisco de Barreiras – FASB, tendo por orientadora Carla Silva Santos

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